Ômega 3 é um suplemento popular mas sua eficácia pode estar sendo superestimada

- Ômega 3 em cápsula não substitui os benefícios da dieta: o efeito positivo vem do padrão alimentar completo (peixe, sono, atividade física, vida social), não do óleo isolado.
- De mais de 4 mil estudos revisados pela Unicamp, só 14 atenderam critérios de qualidade e, entre eles, os resultados sobre cognição e demência são divergentes.
O suplemento de ômega 3 sempre foi muito associado à redução de colesterol e melhora da cognição, mas recentemente o óleo passou a ser atrelado a outros benefícios, como aumento de massa muscular e saúde das articulações. Um estudo recente feito pela Unicamp mostrou, entretanto, que, ao menos para fins de ganho muscular e hipertrofia, o suplemento parece ter sido superestimado. E, mais importante, a pesquisa brasileira alertou para a influência de interesses comerciais em muitos estudos científicos sobre suplementos.

Mas, afinal, o que é o ômega 3? É um tipo de ácido graxo poli-insaturado. Nosso corpo não consegue fabricá-lo, então sua ingestão é muito importante já que ele ajuda a manter o bom funcionamento das nossas células. As principais fontes naturais do ômega 3 são peixes gordurosos, como sardinha, atum e salmão, e sementes de chia, linhaça e nozes.
A pesquisa da Unicamp fez uma revisão de mais de 4 mil estudos sobre o suplemento, mas só 14 obedeceram aos critérios de qualidade definidos pela equipe científica da universidade. As conclusões são divergentes entre eles. Alguns apontam para a eficácia do suplemento na proteção contra demência, outros mostram pouco resultado.
“É preciso atenção para os riscos de interpretar resultados de estudos clínicos isoladamente”, afirma a pesquisadora e nutricionista Heloísa Santo André ao Jornal da Unicamp, “Além disso, todas as recomendações devem ser individualizadas, levando em consideração o contexto do paciente”.



Um estudo publicado em 2021 na National Library of Medicine, por exemplo, mostrou que o ômega 3 tem pouco impacto na melhoria da cognição e no combate a doenças como demência. Uma ideia que ganhou força depois que notícias sobre a longevidade nas chamadas Zonas Azuis ganharam o mundo.
Já, em uma busca simples no Instagram, encontramos mais de 3 milhões de posts com a #omega3. Em sua maioria, são publicações que propagam os benefícios do suplemento e as melhores formas de ingeri-lo. O contrário de uma indicação individualizada, como sugere a pesquisadora da Unicamp. Esse parece ter se tornado um problema comum no mundo dos suplementos, especialmente entre aqueles ligados ao fortalecimento do corpo, ao mundo fitness de modo geral.
De fato, a dieta mediterrânea (uma das Zonas Azuis é a Sardenha) é rica em peixes oleosos, uma das fontes naturais de ômega 3. Mas o que os estudos parecem sugerir é que há uma diferença grande entre a ingestão do óleo a partir de alimentos e a sua suplementação. No fim, são mais os hábitos que nos garantem boa saúde do que a ingestão pontual de suplementos sem que isso seja feito dentro de uma rotina de atividade física e sono de qualidade, por exemplo.


“No Mediterrâneo, níveis altos de ômega 3 são indicativos de uma boa cognição, realmente. Mas as pessoas ali não estão tomando suplemento. Eles comem peixes gordurosos, encontram amigos, tem uma vida mais lenta e sem tanto estresse. Se você tem uma dieta típica do Ocidente, come fast food, não se exercita, vive estressado, o suplemento não vai adiantar nada pro seu cérebro”, disse Hussein Yassine, professor de neurologia da University of Southern California, em entrevista à CNN.
Referências
Santo André, H. C., Esteves, G. P., Barreto, G. H. C., Longhini, F., Dolan, E., & Benatti, F. B. (2023). “The influence of n-3PUFA supplementation on muscle strength, mass, and function: A systematic review and meta-analysis”. Advances in Nutrition, 14(1), 115–127. https://doi.org/10.1016/j.advnut.2022.11.005
Kampf, C. (2023). “Estudo desmistifica suplementação com ômega 3”. Jornal da Unicamp, 685. https://jornal.unicamp.br/edicao/685/estudo-desmistifica-suplementacao-com-omega-3/
Wood, A., Chappell, H., Zulyniak, M. (2022).“Dietary and supplemental long-chain omega-3 fatty acids as moderators of cognitive impairment and Alzheimer's disease”. Eur J Nutr., 61(2), 589-604. 10.1007/s00394-021-02655-4