Mate e guaraná, os estimulantes tradicionais brasileiros que caíram nas graças da Geração Z

- Com 64% dos adultos brasileiros declarando não ter bebido álcool em 2025, o mercado de energéticos cresceu e marcas passaram a apostar em ingredientes naturais como guaraná e erva-mate
- Os dois estimulantes têm origem indígena: o guaraná foi domesticado pelos Sateré-Mawé na Amazônia, e o mate é herança dos povos guarani do Cone Sul
Mate e guaraná são estimulantes naturais de origem indígena que ganharam espaço entre jovens que estão bebendo menos álcool. Ricos em cafeína, o guaraná, cultivado pelos Sateré-Mawé na Amazônia, e a erva-mate, herança dos povos Guarani no Sul, aparecem cada vez mais em energéticos, refrigerantes e suplementos vendidos como alternativas mais naturais à cafeína.


Uma pesquisa do Ipsos-Ipec encomendada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) e divulgada em 2025 mostrou que 64% dos adultos brasileiros declararam não ter consumido álcool naquele ano – um avanço expressivo puxado pelos mais jovens: entre quem tem de 18 a 24 anos, a abstinência passou de 46%, em 2023, para 64%, em 2025.
A busca por alternativas ao álcool tem aquecido o mercado de bebidas energéticas no Brasil. Dados da consultoria Kantar revelaram um aumento de 54% no número de consumidores de energéticos no país em 2023 e 60% deles são da Geração Z, segundo a Times Brasil.
Por outro lado, existe uma preocupação cada vez maior em relação aos energéticos e uma busca por produtos mais naturais e sem açúcar. Diante dessas novas demandas, muitas marcas começaram a desenvolver produtos com chá verde, erva-mate e guaraná. Assim, bebidas ligadas a costumes tradicionais de povos indígenas brasileiros caíram nas graças de jovens urbanos no mundo todo. O guaraná ainda tem a particularidade de ter se tornado um suplemento ligado a foco e cognição.
Guaraná e os indígenas Sateré-Mawé
O primeiro registro escrito do guaraná é de 1669, quando o povo indígena Sateré-Mawé teve o primeiro contato com os europeus. Em uma carta enviada à Coroa portuguesa, um padre jesuíta escreveu sobre uma pequena fruta que os indígenas tratavam como se fosse ouro. O fruto vermelho do tamanho de um grão de café era o guaraná.
O Brasil é praticamente o único produtor comercial de guaraná do mundo, e a cidade de Maués, a 356 quilômetros de Manaus, é uma das principais produtoras da fruta no país. Por ano, ela produz mais de 400 toneladas de guaraná. Estima-se que 70% da produção de guaraná seja destinada para refrigerantes e energéticos e os outros 30% são processados em pó e vendidos como suplemento ou usados em cosméticos.
O guaraná tem quatro vezes mais cafeína do que o café além de outras substâncias estimulantes, como teobromina e teofilina. Seu consumo está associado a vários benefícios. O guaraná é rico em antioxidantes, aumenta a energia, pode ajudar na saúde do coração e até atuar como um regulador do intestino.
O mate e a identidade gaúcha
Já a erva-mate está muito ligada à identidade gaúcha e, de forma mais ampla, à dos povos do Cone Sul. Afinal, o consumo do mate é muito alto entre argentinos, paraguaios e uruguaios também. O que muita gente não se lembra é que esse costume também tem origem indígena, nos povos Guarani.


Os indígenas usavam as folhas de mate para fazer uma bebida que tomavam em rituais coletivos. No Brasil, ainda era comum que a erva fosse mascada e usada como um fitoterápico. Durante o século XVII, o consumo de erva-mate chegou a ser brevemente proibido no Paraguai pelos jesuítas. Mas hoje a bebida, tomada como chimarrão, tereré ou chá-mate, se tornou um hábito disseminado entre a população dos países do Cone Sul e é facilmente encontrada em lojas e supermercados mundo afora, além de fazer parte da composição de várias bebidas energéticas.
Entre seus potenciais benefícios, estão: o aumento de energia, a prevenção a diabetes, a regulação do humor, o fortalecimento do sistema imunológico e a prevenção de doenças cardiovasculares.
O Brasil é o maior produtor de erva-mate do mundo. Segundo o IBGE, só em 2024, o país colheu cerca de 841 mil toneladas de folhas de erva-mate. A maior parte é comercializada internamente e o restante exportado para países como Uruguai, EUA, Síria e Argentina.
Referências:
Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. (2025). Álcool e a saúde dos brasileiros: Panorama 2025. https://cisa.org.br/biblioteca/downloads/artigo/item/569-panorama2025
Kantar. (2025, 13 de março). Brasileiro compra mais energéticos fora de casa, com Nordeste se tornando o principal mercado. https://www.kantar.com/brazil/inspiration/consumo/2024-wp-energeticos-bra