‘Influencers da solidão’: o que é esse novo tipo de conteúdo que tem ganhado cada vez mais seguidores nas redes sociais

- Apelidadas de "influencers da solidão", criadoras retratam rotinas solitárias, sem amigos ou parceiros, como sinônimo de liberdade e não de tristeza
- Um estudo de Harvard, que acompanha grupos de pessoas há mais de 80 anos, no entanto, descobriu que conexões sociais são um fator determinante para uma vida saudável e feliz
Uma mulher chega em casa no fim do dia, arruma as coisas e prepara seu jantar. Uma legenda aparece na tela: “pov: você é uma mulher solteira sem filhos ou amigos e essa é a sua sexta-feira à noite”. Lana Isa é uma canadense na faixa dos 25 anos que acumulou quase 500 mil seguidores no Instagram e no TikTok filmando sua rotina solitária. Ela faz parte de um novo tipo de influencer que vem crescendo lá fora: as influencers da solidão, ou elas diriam, de solitude. São mulheres que vivem sozinhas, dizem não ter amigos ou companheiros e quase não mostram suas famílias. Elas afirmam que não são tristes por serem solitárias. Ao contrário, levam uma vida independente e livre por causa disso.



Em entrevista ao portal Vox, Lana Isa disse que sempre foi uma pessoa introspectiva e que durante muitos anos tentou se adaptar para conhecer outras pessoas e fazer novos amigos até que desistiu.
Já Devon Noehring, criadora de conteúdo americana de 35 anos, narra sua rotina sozinha e explica para seus seguidores que sempre teve ansiedade social. Depois de se sentir um pouco triste com seus fins de semana solitários, resolveu aproveitar sua companhia da melhor maneira, incluindo atividades que vão além de ficar horas nas redes sociais. Hoje, ela se irrita quando associam estar sozinho à solidão.
De fato, todas as duas parecem felizes com suas vidas e tentam mostrar como estar sozinha lhes dá liberdade para fazer o que quiserem na hora que quiserem. Lana Isa, por exemplo, tem inúmeros vídeos viajando, indo ao cinema e conhecendo cafés em outras cidades próximas à sua.


O que a ciência diz sobre a solidão?
Mas a ciência tem mostrado que, apesar de todos experimentarem momentos de solidão em algum momento da vida, as relações são vitais para uma vida mais feliz (e mais saudável).
Robert Waldinger, professor de psiquiatria da Universidade de Harvard, ficou famoso por seu TedTalk sobre o que torna uma vida boa, baseado no “Estudo de Desenvolvimento Adulto”, conduzido pela universidade com o acompanhamento de 700 pessoas durante mais de 80 anos.
Waldinger é categórico ao dizer que o que os pesquisadores descobriram não é a importância do dinheiro e do sucesso para uma vida saudável e feliz, e sim as conexões sociais. Isto é, a qualidade das nossas relações sociais torna nossa vida melhor. “Pessoas conectadas a suas famílias, amigos e comunidade são mais saudáveis e felizes e vivem mais tempo”, afirma na palestra.
Isolamento pode causar mais estresse
Em entrevista à BBC, o professor explica que o estresse é parte natural da vida, mas também uma grande fonte de angústia e fator de envelhecimento. Quando passamos por situações estressantes, nossas frequência cardíaca e pressão arterial aumentam, por exemplo. O estudo reparou que o isolamento e a solidão também são geradores de estresse e que ter alguém para dividir experiências negativas ajuda nosso corpo a se reequilibrar.
Claro que estar sozinho não é sinônimo de infelicidade, mas as redes sociais têm uma tendência de glamourizar a realidade. E, por mais independente que se sinta, o ser humano também precisa de conexões sociais e o estudo de Harvard é apenas um dos muitos que mostram como o isolamento intenso prejudica o bem-estar não só mental, como também físico.