As canetas emagrecedoras e a crise do prazer na hora comer

- Remédios como Ozempic se popularizam mundo afora: nos EUA, um em cada oito adultos estão usando; no Brasil, caneta nacional chega ao mercado com preço mais acessível
- Pessoas estão pedindo porções menores no restaurante e prazer de comer é colocado de lado
- Chefs se mostram frustrados e se sentem desvalorizados
Quando Anthony Bourdain fez seu episódio no Brasil, visitou Salvador e comeu alguns pratos típicos da região. Sentado em uma mesa de plástico no meio da calçada, o crítico gastronômico fala maravilhas da nossa farofa: “o acompanhamento perfeito para muitas, muitas caipirinhas”. Quem acompanhou a carreira de Bourdain lembra da forma tão característica que ele tratava a comida: uma experiência cultural, apreciada com doses cavalares de hedonismo. Bourdain não chegou a conhecer as canetas emagrecedoras, nem seus impactos para a gastronomia. Mas podemos imaginar que não seria um grande fã da popularização indiscriminada do medicamento: os dois operam em lógicas opostas.


As canetas emagrecedoras começaram a ganhar força no Brasil em 2023. Medicamentos recomendados para o controle da diabetes ou para o combate à obesidade, Ozempic, Mounjaro e outros compostos de semaglutida passaram a ser consumidos por cada vez mais pessoas sem esse tipo de condição. A semaglutida atua como agonista do receptor do hormônio GLP-1, imitando seus efeitos. Isto é, a sensação de saciedade. Os motivos para o boom na comercialização das canetas parecem ser, sobretudo, estéticos. E o que podia ser considerado uma moda passageira há três anos se consolidou no mercado. Nos Estados Unidos, por exemplo, um a cada oito adultos afirmam estar sob uso deste tipo de remédio. No Brasil, uma pesquisa da consultoria de foodservice Galunion, realizada em 2025 com consumidores desse tipo de remédio, mostrou que 91% deles já mudaram seus hábitos de consumo fora de casa. Além disso, em junho, chegou às farmácias o Ozivy, primeira semaglutida nacional aprovada pela Anvisa com preços muito mais acessíveis, o que pode aprofundar a disseminação do medicamento. Mas a questão das canetas emagrecedoras vai muito além da perda de peso: o medicamento está mudando o comportamento das pessoas em relação à comida e obrigando a indústria e, principalmente, os restaurantes a repensarem seus modelos de funcionamento.
Autor de As Revoluções da Comida (Todavia), livro que mapeia as transformações na forma como comemos nas últimas cinco décadas, o jornalista e crítico gastronômico Rafael Tonon diz já ter notado essas mudanças: “As pessoas vão ao restaurante pedindo porções menores. Um grande problema se tornou o menu degustação, acho que são os que mais estão sofrendo. Fui recentemente ao Yeatman [o hotel de luxo tem um restaurante com duas estrelas Michelin, liderado pelo chef Ricardo Costa], no Porto, e eles lançaram um menu que tinha 13 pratos e outro com nove ou dez”.

Para Tonon, no entanto, a redução das porções nos restaurantes não é o pior efeito das canetas. “Sinto que elas vêm como uma espécie de cereja do bolo em um movimento que deixa de ver a comida como um prazer, com um hedonismo, essa coisa meio glutona. Acho que esses medicamentos tiram isso das pessoas e elas começam a olhar a comida como uma necessidade, um mero combustível para o corpo”, explica o crítico brasileiro.
Beatriz Herz, sócia e co-fundadora do Celeiro, prestigiado restaurante a quilo no Leblon, conta que ainda não reparou essa movimentação. A verdade é que seu restaurante tem vivido o oposto nos últimos seis meses: pessoas consumindo cada vez mais. Beatriz, no entanto, tem notado uma mudança de postura de forma geral em relação à comida e pensa até que o aumento do consumo no Celeiro pode estar ligado ao tipo de comida que o restaurante oferece, muitas opções saudáveis e leves.
A comida é muito mais do que a junção de nutrientes para suprir nossas necessidades físicas e biológicas. O Celeiro mesmo nasce dentro de uma família. Beatriz fundou o restaurante com sua mãe, Maria Rosa Lacombe Herz. E a relação da mãe com o tipo de comida que o Celeiro faz surgiu muito de uma condição que Beatriz tinha quando pequena: era celíaca e tinha alergia a corantes muito difundidos entre alimentos na época. Aquela situação abriu um novo campo de curiosidade para a sua mãe. As receitas da matriarca deram origem ao provavelmente mais prestigiado restaurante a quilo do Rio de Janeiro. Depois às duas se juntou a outra filha, Lúcia, que hoje comanda o restaurante com Beatriz.
Mas, se no Celeiro o movimento ainda não foi sentido, em restaurantes de alta gastronomia o dilema já é mais palpável e tem afetado os próprios chefs, que se sentem desvalorizados:


“Sinto que os chefs estão frustrados. Quando eles montam um menu degustação, por exemplo, estão contando uma história, compartilhando diferentes técnicas. Eles estão mostrando uma visão criativa sobre gastronomia. Quando o cliente come metade e manda voltar o resto, é muito frustrante. Quando as pessoas perdem o prazer e a curiosidade de olhar isso com esse tesão de ver a comida, é complicado. Acho que estamos vivendo uma crise do próprio prazer de comer”, reflete Rafael Tonon.
De outro lado, a mesa sempre foi um ambiente de convívio social, onde as pessoas se reuniam (em casa ou na rua) para conversar e esquecer um pouco dos problemas do dia a dia e do trabalho. Era aquele momento: vamos comer e beber para ser um pouco felizes depois de uma semana de trabalho. Mas, se a comida é reduzida a combustível e nutrientes, como fica essa equação? “Acho que as pessoas entraram numa de que só o que é funcional importa, pensam muito no resultado imediato, mas existem outros custos”, diz Tonon.
Em um mundo onde a produtividade virou métrica de sucesso e existe uma hipervigilância sobre a vida e os corpos das pessoas, muito impulsionada pelas redes sociais, o hedonismo perdeu seu lugar. Mas será que essa conta vale a pena? Será que o espírito do Anthony Bourdain não deveria animar um pouco mais nossas escolhas na mesa e na atitude com a vida? São questões assim que merecem reflexões mais longas antes de aderirmos a padrões que tentam impor visões muito específicas (e esvaziadas) sobre corpo e vida.